segunda-feira

Espelho


Ela vê-se no espelho.
Nesse preciso momento, o espelho parte-se à sua frente.
Em mil e um bocados. Talvez mais.
São tantos!
Chateada e perplexa ela tenta apanhá-los, mas eles parecem fugir das suas mãos como bolinhas de mercúrio.
Agora ainda mais furiosa, começa a chorar.
Olha de novo para os bocados de espelho e neles vê caras.
Todas as caras do Mundo.
Tenta juntá-las como pequenas peças de puzzle, mas não consegue.
Porque raio aquele espelho que já reflectiu a sua cara, agora se estilhaçou e retratou todas as caras do Mundo?
Porquê?
Será que lhe está a tentar dizer algo?
Volta a tentar juntar as peças idênticas, mas estas voltam a fugir-lhe.
Tenta juntar tudo, agora sem ordem, para que volte a ver a sua cara reflectida naqueles pedaços todos amontoados.
O que consegue ver?
Consegue ver que nenhum daqueles pedaços se consegue assemelhar a ela.
É como juntar a água ao azeite.
Não entende o porquê. Ou será que sabe, mas é tão mau que nem quer acreditar?
Merda para tudo!
Todas aquelas caras e todos aqueles pedaços não correspondem ao retrato que reflectem.
Quem será diferente?
As caras? Que não consegue juntar.
Ou ela? Que se vê reflectida em mil pedaços naquele espelho estilhaçado.
Desta vez, não sabe a resposta.
Sabe que como aqueles pedaços, há muitos. Todos iguais. Todos com os mesmo erros, com os mesmos vícios.
Mas como a sua imagem não vê ninguém semelhante. Nem nos olhos enrugados das lágrimas, nem no seu sorriso escondido, nem na sua pele pálida.
Apercebe-se que à medida que a sua raiva fica mais pequena, os pedaços da sua figura reflectida, separam-se e tentam juntar-se nas caras do Mundo.
O que quererá dizer?
Terá ela que amainar a sua raiva e a sua angústia para conseguir ver as caras todas juntas de novo?
Talvez.
É impossível. Agora não consegue.
Mas...tem medo que as caras do Mundo se fartem de esperar e que percam a força que têm para se juntar, e ela as perca de vez.
Para todo o sempre.
Olha para os pedaços no chão e pede-lhes que lhe dêem tempo para a sua consciência e para o seu coração aceitarem estas situações, e para que volte tudo ao normal.
Conseguirá ela que eles a oiçam?
E que eles lhe concedam o perdão e mais tempo?
Desiste.
Chora. Deita todas as lágrimas para cima daqueles malditos pedaços de espelho partido no chão da sua casa-de-banho.
Os pedaços, com a intensidade daquelas lágrimas, juntam-se e formam de novo o seu retrato. Não formam as todas caras do Mundo. Formam o seu retrato.
Ela ao reparar, limpa as lágrimas, olha para o reflexo e sorri.
Terão eles dado-lhe mais tempo?
Talvez.
Mas estes fizeram-lhe ver que não pode pedir desculpa por aquilo que os outros fazem.
Que não pode tentar juntar o que por natureza não se junta.
Que não pode reparar tudo o que lhe aparece nas mãos já bastante quebrado.
Preocupa-se demasiado. Emociona-se demasiado. Pensa demasiado. Gosta demasiado.
Será defeito ou qualidade?
Volta a olhar para o seu reflexo no espelho partido, e apercebe-se que a vida é só uma.
Que é ela uma vez, e não será outra.
Nisto, borrifa-se para o espelho partido e para todas as caras do Mundo, e preocupa-se apenas com o seu reflexo, agora cada vez mais definido.
Nota como tem os traços da cara bem traçados, em como os seus olhos são bonitos e como o seu sorriso é encantador.
Larga uma lágrima redonda. Uma só. De libertação.
Tem esperança que um dia... Um dia, ela irá encontrar os pedaços que juntos, são o pedaço que lhe falta.

1 comentário:

Anónimo disse...

Fizeste-me chorar.

«‘Til we meet you again, may God bless you. Adios!» by Elvis, 1977